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DIÁRIO DE BORDO - Revista TPM

Três vezes vencedora do Ecomotion Pro Barbara Bomfim conta os detalhes de jornada no sul da Bahia.

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A preparação para uma competição como o Ecomotion Pro - a mais importante corrida de aventura da América Latina, com duração de até seis dias, percurso de mais de 600 quilômetros e provas que incluem trekking, mountain bike, canoagem e natação - não pode ser feita em meses, mas em anos. Há dez anos competi na primeira versão da competição, na Chapada Diamantina. Não tinha nenhuma experiência em corrida de aventura de longa distância, somente a vontade de ir ao desconhecido. A corrida de aventura, para mim, é o esporte mais sofrido do mundo: a equipe, formada por quatro pessoas, se atira em um percurso surpresa, em um terreno desconhecido e tem de conviver por diversos dias até a tão sonhada linha de chegada. Desconforto é a principal palavra desse esporte. Então, por que praticar? Para responder a essa pergunta, tive que me atirar em mais uma aventura.

Um mês antes da largada do Ecomotion Pro 2013, na Costa do Cacau, entulhei meu carro 1.0 zero válvulas e voltei à Chapada Diamantina, também na Bahia, para reviver em parte o Ecomotion 2003 com o Urtzi, meu namorado e companheiro de equipe. Desfrutamos as belas paisagens da chapada e treinamos em condições parecidas às da prova, fazendo longos trekkings, canoagem em rio e mountain bike em trilhas técnicas. Logo após essa injeção de ânimo e positividade, fomos ao sul da Bahia ao encontro do resto da equipe. E tivemos um grande problema: às vésperas do início da prova, uma das bikes encontrava-se na Receita Federal no aeroporto de Guarulhos e nosso companheiro de equipe deveria voltar lá para retirá-la. PÂNICO! Estávamos a ponto de não poder competir na prova para a qual tanto nos preparamos. No final, deu tudo certo. Só com a roupa do corpo (bermuda, camiseta e chinelo), ele quase congelou em Guarulhos e perdeu uma noite de sono, mas recuperou a bike.

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No dia anterior à largada eu estava tranquila, com meu material de competição bem organizado e boas expectativas. À noite, sonhei que tínhamos triunfado em uma chegada emocionante na praia, mas, claro, sonho é sonho... Antes da largada, só pedi a Deus que nos protegesse para que pudéssemos atravessar a linha de chegada inteiros. O resto, faríamos nós mesmos. O começo da prova foi duro: fazia muito calor e as equipes estavam todas muito juntas. Nunca gosto de começo de prova. Pouco a pouco fui me sentindo bem e conseguimos avançar pela costa em trekking até entrar na Mata Atlântica das serras. Terminamos a primeira etapa na primeira colocação, mesmo competindo com equipes de alto nível técnico e físico.

Em seguida, fizemos uma natação bem longa num lago que eu adorei. Um grande banho de água doce, ótimo para tirar a lama. Mas logo começaram os problemas... saímos para remar, mas, como era noite, não encontrávamos o canal para onde deveríamos ir. Eu e o Urtzi discutimos, o que prejudicou a equipe em tempo perdido e em rendimento. Remamos até Ilhéus, onde fizemos uma orientação urbana - a leitura de mapa e bússola - bem legal. Fiquei surpresa de ver minha equipe ainda na primeira colocação!

Seguimos em mountain bike até a Serra das Lontras, onde estivemos embrenhados na Mata Atlântica. Amei essa parte da corrida, pois como engenheira florestal observo muito as formações vegetais, e as florestas são minhas favoritas. Por lá também comemos cacau, que vive na sombra, embaixo da mata. Que bom invento da natureza: a parte comestível é doce e fácil de comer. Esses detalhes do percurso ajudam muito a minimizar a dor das pernas e enganar a cabeça, já que são muitas horas de competição.

Seguimos passando por povoados e interagindo com as populações, curiosas para saber de onde vínhamos e para onde íamos. Nos diziam que faltava muito para chegar – e eles tinham razão. A cada transição meu corpo ia mostrando sinais do esforço, mas a experiência de dez anos me ajudou a enganá-lo. Conseguimos fazer excelentes trechos, seguidos por outros não tão bons assim: até 3 horas foram perdidas por erro de orientação para chegar a um ponto de controle. Os erros são frustrantes e nos abalam psicologicamente. A cada erro tínhamos que nos reinventar como equipe para manter a motivação.

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Tivemos momentos de discussões que se tornaram maiores, devido às poucas horas dormidas. Nesses momentos, sempre penso que eu não deveria mais estar competindo. A privação de sono e o grande esforço pioram essas baixas psicológicas. E ainda tomamos um susto ao atravessar um pasto: um grupo de vacas saiu correndo por causa de nossas luzes, exceto um bezerro, que ficou para trás. Segundos depois, sua mãe foi com tudo para cima do Urtzi; gritamos e direcionamos nossas luzes para cegá-la, afastando-nos para que o bezerro pudesse sair de lá com ela.

A cada ponto de controle e transições fomos mantendo nossa colocação. Em Belmonte, cruzamos com as duas equipes que estavam próximas e isso nos deu uma injeção extra de energia para seguir lutando até o último trecho da prova: uma canoagem de 54 quilômetros de Canavieiras até a Ilha de Comandatuba. A canoagem não é o forte da minha equipe, e eu tinha quase certeza de que perderíamos o primeiro lugar na reta final. Velejamos e remamos em ondas que chegavam a assustar, mas que só nos deram alegria ao nos empurrar fortemente até a linha de chegada. Fiquei muito emocionada ao vencer pela terceira vez consecutiva a maior corrida de aventura da América Latina, uma prova que me testou física e psicologicamente. E agora digo claramente: faço corrida de aventura porque é uma experiência única e de intensidade incomparável.

A jornada só terminou na minha casa, em Brasília, a 1.500 quilômetros da linha de chegada, percorridos em dois dias com o mesmo 1.0 atolado com duas caixas de bike no teto, cinco malas e duas bikes dentro do carro. Isso, sim, uma aventura.

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From: http://revistatpm.uol.com.br/perfil/136/diario-de-bordo.html


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